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Semana Santa - Memória de Jesus no hoje da história
10/04/2004

Alguns apontamentos para ajudar a refletir...

A Semana Santa celebra-se na comunidade. A Semana Santa para os cristãos se reveste de um sentido todo especial e é um marco importante no seguimento de Jesus Cristo. Neste tempo, muitos procuram sair das cidades e abandonar as suas comunidades para fazer alguns dias de descanso na praia ou no campo. Essa é uma prática imprópria e que em nada condiz com o sentido espiritual da pastoral e da liturgia que se celebra. Isso acarreta uma perda para a formação cristã e priva as pessoas da oportunidade de crescerem espiritualmente e se integrarem mais profundamente na vivência do Mistério Pascal de Cristo. O lugar para passar a Semana Santa é a comunidade, participando de suas celebrações.

Tempo de Retiro. A Semana Santa é tempo privilegiado para a comunidade e os cristãos, no silêncio e na oração, fazerem o encontro com o Senhor, conviverem mais intensamente com Ele, avaliarem as suas práticas em busca da vida plena. É um tempo propício para acolher a misericórdia de Deus Pai, revelada na vida de Jesus, o Filho amado. Tempo para ler e escutar a Palavra de Deus e colocar a vida em dia diante do Senhor e dos irmãos. Tempo de ação de graças para bendizer o Senhor pela salvação que nos oferece.

Tempo de renovação. Nos dias da Semana Santa a graça e a bênção de Deus são mais palpáveis e mais intensamente sentidas na comunidade. A força pascal do Cristo invade o tempo, atinge o coração, ilumina as mentes, questiona as contradições humanas e provoca o novo. Transforma o ser humano e o introduz numa nova vida, despertando o gosto pelas coisas de Deus, alimentando o prazer de estar com Deus, a serviço do seu Reino. Participar das celebrações na Semana Santa significa entrar na força da Páscoa do Cristo que tudo renova e plenifica com seu Espírito.

Tempo de cultivar o novo. Durante oito dias, celebrando o mistério da morte e ressurreição do Senhor, aprendemos em que consiste a liturgia do Filho de Deus que disse: Eu vim para servir e não para ser servido(Mt 20,28) e que afirmou: ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus amigos(Jo 15,13). Esse jeito de Jesus entender a vida como serviço, nós lembramos e celebramos na liturgia. E pela liturgia, o Espírito Santo imprime em nossas vidas esse jeito de Deus amar e servir. Fazer memória de Jesus na liturgia nada mais é do que permitir que a novidade do evangelho, essa liturgia de Jesus, a sua solidariedade humano-divina se instaurem em nossas vidas e nos façam pessoas novas e santas, provocadoras do Projeto de vida em abundância para todos (cf. Jo 10,10). Nas celebrações da Semana Santa se descobre e se cultiva a novidade do Reino de Deus.

Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor: lembra o projeto de Jesus

Na liturgia deste domingo, revivemos a entrada de Jesus na cidade de Jerusalém para celebrar a sua Páscoa. Unidos aos seus sentimentos, mergulhamos no seu projeto de obediência ao Pai e de serviço à humanidade. Lembrando Jesus reafirmamos nossa obediência e assumimos a solidariedade com os excluídos e marginalizados.

Três símbolos estão presentes na liturgia: os ramos, a procissão com ramos e a proclamação do Evangelho da Paixão.

Fazemos parte de um povo que sai às ruas, agitando ramos, cantando hinos ao Cristo, nosso Rei e Redentor. Aclamamos Jesus como Messias, o esperado das nações. Cremos que Ele vem realizar as promessas antigas e instaurar o Reino: Justiça para os pobres, participação na construção da sociedade solidária, convivência fraterna, paz entre os povos; diálogo entre as religiões e culturas e vida em abundância para todos.

Em cada celebração, o Senhor está presente para realizar as promessas e nós o acolhemos através da prece e da participação e nos unimos à sua missão de trazer a paz. No Domingo de Ramos isso acontece de modo especial. A liturgia dos ramos não é uma repetição apenas da cena evangélica, mas sacramento da nossa fé na vitória do Cristo na história, marcada por tantos conflitos e desigualdades.

É o Domingo da Paixão de Jesus, do seu sofrimento assumido como expressão de compaixão pela multidão de famintos e da nossa compaixão com todos os sofridos em sua busca de libertação.

A entrada triunfal em Jerusalém é o convite para que os cristãos entrem hoje nas cidades e proclamem o Projeto de vida e promovam o mutirão contra a fome e a corrupção. Em procissão, aclamando que Ele vem em nome de Deus, aderimos ao seu projeto e abraçamos a sua atitude de servidor fiel até a extrema entrega na cruz.

5ª Feira-Santa: Festa do serviço e da partilha

Na Eucaristia Jesus deixa o seu testamento com este seu pedido: Façam isto em minha memória. A eucaristia, a nova Páscoa, é memória da entrega do Senhor, de sua morte e ressurreição. Jesus que celebra a última ceia é o mesmo que dá o seu corpo e derrama o seu sangue por nós.

Hoje, em todas as comunidades do mundo, se faz memória da última ceia de Jesus, da sua doação sem limites na cruz. Celebra-se a inauguração da nova aliança no sangue derramado para a salvação da humanidade. É o início do Tríduo Pascal que terá o seu término na tarde do domingo. Realiza-se para as comunidades o Mistério Pascal de Cristo, a sua passagem deste mundo para o Pai. O evangelho do lava-pés (Jo 13, 1-17) nos dá o sentido da vida de Jesus e revela o significado na participação da eucaristia: solidariedade e serviço.

Com este Evangelho entramos na liturgia e comungamos com os sentimentos de Jesus que tinha consciência que seria traído e entregue. Assume a missão até o fim em fidelidade ao Pai e por amor à humanidade e aos seus. Dois gestos marcam a liturgia e falam da entrega de Jesus: o lava-pés e, na eucaristia, o pão e o vinho partilhados.

Na celebração lembramos as palavras de Jesus: “Desejei ardentemente comer convosco esta ceia pascal antes de sofrer” (Lc 22,15).

Celebrar a eucaristia significa participar na Páscoa de Cristo, na sua morte e ressurreição. Participando da celebração entregamos com Jesus nossa vida ao Pai, na certeza de que um dia o Reino acontecerá - não haverá mais lágrimas nem sofrimento e não existirá mais fome nem dominação.

6ª Feira Santa: Memória da solidariedade de Jesus até a morte na cruz

No centro da liturgia de hoje está a cruz, erguida como sinal e prova do amor de Jesus, condenado injustamente, torturado até a morte, que colocou sua vida nas mãos do Pai, confiando na justiça e na misericórdia do Pai.

No Domingo de Ramos, Jesus, entrando em Jerusalém, apresenta o seu projeto político e religioso, capaz de revolucionar o modo de organizar a cidade, estabelecer relações entre as pessoas e firmar um culto em espírito e verdade.
Na última ceia, ao redor de uma mesa, partilhando o pão e rendendo graças, ensina, em que consiste o milagre da partilha e a força revolucionária do serviço e da solidariedade.

Logo depois, sofre a rejeição e a condenação por causa do projeto em favor da vida e dos pobres. Enfrenta a morte violenta na cruz para proclamar que o Reino, a liberdade e o pão com fartura só virão de dentro do coração de pessoas solidárias, abnegadas e consagradas para viver e ensinar que o pão só tem sentido quando partilhado.

Na Vigília Pascal, celebramos o começo de uma nova história: o Pai ressuscita o seu Filho para mostrar que pelo caminho da cruz chega a vida para o mundo e pela doação de Jesus, Ele intervém para fazer novas todas as coisas. Ressuscita o seu Filho para indicar que a salvação tem a sua fonte no amor e só se participa da salvação, assumindo o caminho da cruz. Na celebração sempre lembramos a cruz e o testemunho de Jesus. E ao fazer a celebração, entramos de corpo e alma no seu caminho e ressuscitamos com Ele.

Na liturgia da morte do Senhor, o nosso coração contempla a cruz que acompanha, no dia a dia, tantos irmãos que sofrem a dor da fome, experimentam o ódio e a rejeição e são marcados pela violência e a discriminação.

A cruz de Jesus e a cruz dos irmãos nos conduzem à liturgia onde se celebra o amor e a misericórdia do Pai que acolhe o sofrimento do seu Filho e abraça a dor dos seus filhos e não os esquece nem os abandona.

Na 6a. feira Santa, reunidos em assembléia, tendo a cruz no centro, em silêncio e em oração, nos ajoelhamos, expressando a nossa solidariedade com todos os que sofrem e manifestamos o nosso protesto contra a injustiça, a guerra, a violência e a opressão. Rezamos com os crucificados do mundo, confiantes na força pascal da Cruz de Jesus que nos libertará de todo o sofrimento.

A cruz nos lembra o amor e a entrega radical de Jesus para fazer a vontade do Pai e realizar a experiência do Reino de fraternidade e justiça. Dessa entrega de Jesus nasce a Igreja. Desse seu amor, simbolizado no coração aberto pela lança, brotam os sacramentos do batismo (água) e da eucaristia (sangue).

È significativo o rito da entrada da cruz na assembléia litúrgica como sinal da páscoa de Jesus, de sua vitória sobre a morte e a injustiça. Pela força da cruz estamos reunidos. Cristo, em todas as celebrações, reúne na unidade os filhos dispersos e os constitui o novo povo eleito, profético e sacerdotal.

Sábado santo: Dia de silêncio e espera

No Sábado Santo não há nenhuma liturgia oficial. As igrejas estão vazias. Os altares desnudos. Os tabernáculos abertos e vazios. As velas apagadas. O silêncio pervade todos os ambientes. É uma experiência de tristeza e atitude de espera.
Tudo para lembrar que Cristo desce à mansão dos mortos e assume o destino e a limitação do ser humano. Ele é solidário até o fim e faz a descida da morte, entra no seu mistério, para sair vitorioso e abrir para todos um caminho de luz e esperança.

Uma homilia, do século IV, fala bem alto: Que está acontecendo hoje? Um grande silêncio reina sobre a terra. Um grande silêncio e uma grande solidão. Um grande silêncio, porque o Rei está dormindo; a terra estremeceu e ficou silenciosa, porque o Deus feito homem adormeceu e acordou os que dormiam há séculos. Deus morreu na carne e despertou a mansão dos mortos. (...) O Senhor entrou onde eles estavam, levando em suas mãos a arma da cruz vitoriosa. Quando Adão, nosso primeiro pai, o viu, exclamou para todos os demais, batendo no peito e cheio de admiração:”O meu Senhor está no meio de nós”. E Cristo respondeu a Adão:”E com teu espírito”. E tomando-o pela mão, disse: “Acorda, tu que dormes, levante-te dentre os mortos, e Cristo te iluminará.

No silêncio, somos convidados a fazer uma viagem até o nosso interior e meditar sobre o sentido da nossa vida e avaliar a qualidade da nossa relação com o Senhor. Silêncio que nos leva perceber o mistério que envolve a nossa vida e nos fala da necessidade de estarmos com Deus.

Sábado Santo é dia de recolhimento, de encontro com o Ressuscitado, na oração e na contemplação. É preparação para liturgia da Vigília Pascal, a grande festa, a mãe de todas as vigílias e a fonte de todas as liturgias. Aí encontramos um sentido para a vida e ressuscitamos com Cristo para uma vida nova.

Vigília Pascal: Cristo ressurgiu da morte.

É a grande festa. A liturgia mais solene e importante da Igreja. A celebração mais bonita e marcada pela emoção e pelo louvor.

Era o primeiro dia da semana. As mulheres foram de madrugada ao sepulcro, levando perfumes, e encontraram a pedra removida. Ficaram com medo. Lembraram as palavras de Jesus e voltaram, anunciando a ressurreição aos onze e a todos os outros.

A vigília pascal é o acontecimento marcante porque a comunidade se reúne para celebrar a ressurreição do Senhor – acontecimento histórico que a constitui e identifica.
Vigília Pascal celebra Cristo, o novo Adão. É a nova criação do mundo. Cristo é o nosso Moisés que liberta o povo de todas as escravidões. Em Cristo o povo livre e peregrino, fundamentado na nova Aliança com Deus, vive a plenitude da promessa e faz a experiência da fraternidade e partilha.
O Círio Pascal é o símbolo de Cristo Ressuscitado que vence toda escravidão. Acendemos as nossas velas no Círio e saímos pelas ruas cantando a nossa ressurreição e vitória no Ressuscitado.

A Vigília Pascal lembra e renova o nosso batismo. Pelo batismo morremos e ressuscitamos com Cristo. Mergulharmos nas águas para enterrar todo pecado. Saímos da água para simbolizar que em Cristo iniciamos uma nova vida, renovada e vivida no Espírito Santo.

O momento alto desta noite é a celebração da eucaristia. Bendizemos ao Pai que ressuscitou seu Filho e nos faz participantes da sua vitória sobre a morte. Reunidos ao redor da mesa, comemos o pão partilhado e bebemos o vinho, sangue derramado, como convivas, na esperança de um dia participar para sempre na festa do Reino, que um dia será plena e nunca se acabará.

Nesta celebração pascal, acolhamos a palavra da ressurreição e deixemo-nos abençoar por esta palavra. Passando pelas águas batismais, mergulhemos na imensidão da compaixão do Pai que nos recria para um novo jeito de viver.

A Vigília Pascal nos liga e nos introduz na celebração do Domingo da ressurreição e nos move para a festa dos cinqüenta dias de festa: “Este é o dia que o Senhor fez para nós. Alegremo-nos e Nele exultemos” (Gl 118). Mas a missa da Vigília é a verdadeira missa da Domingo de Páscoa. As outras missas durante o domingo são prolongamento da Vigília e mantém o clima pascal festivo.

Tempo Pascal: a Festa da Vitória de Jesus.

O tempo pascal é celebrado como um só e grande dia de festa desde o Domingo da Ressurreição até o Domingo de Pentecostes. E celebrar o tempo pascal é festejar, aqui e agora, a ressurreição de Jesus como nova vida para as pessoas, comunidades e a humanidade. É vibrar intensamente com a ressurreição de Jesus, revestidos de sua vitória sobre a morte, lembrando todos os dias, na liturgia e na oração: “Ele não está aqui, ressuscitou” (Mc 16,6), e alegrando-nos com a sua saudação:”A paz esteja convosco! Não tenhais medo, sou eu!”(Lc 24, 36-37)
e como os discípulos de Emaús, reconhecendo o Ressuscitado presente na caminhada, nos pequenos e simples gestos, na escuta da palavra da Escritura, no repartir os alimentos e nas celebrações da comunidade (cf. Lc 24, 13-35).
Na festa da Ascensão, celebramos a subida de Jesus aos céus. Ele, rejeitado pela justiça dos homens, Deus o faz sentar à sua direita, dando-lhe o poder de julgar e governar o mundo inteiro, tornado-o Senhor da história. Subindo aos céus, Ele nos envia a proclamar por toda a terra o seu Reino de vida e liberdade.

No dia de Pentecostes termina o tempo pascal e o Mistério da Páscoa de Jesus atinge a sua plenitude no dom do Espírito derramado sobre a Igreja.


Pe. Marcelino Sivinski

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