Papa fala às crianças nos 160 anos da Infância Missionária 25/02/2003
Por ocasião dos 160 anos de história da Obra Pontifícia da Infância Missionária, o papa João Paulo II enviou às crianças do mundo inteiro a seguinte Mensagem:
Queridas crianças missionárias!
1. Na primeira metade do século 19, a Europa viveu uma grande expansão missionária, e a Igreja, consciente do potencial missionário da infância, começou a pedir a elas que se tornassem protagonistas do anúncio do Evangelho às outras crianças.
Em 9 de maio de 1843, o Bispo de Nancy (França), Dom Charles de Forbin-Janson, desejoso de apoiar as atividades dos católicos na China, propôs às crianças de Paris que ajudassem outras crianças, recitando uma Ave-Maria por dia e oferecendo um dinheirinho por mês. Em pouco tempo esta iniciativa missionária de apoio material e espiritual ultrapassou as fronteiras da França e difundiu-se em outros países.
Em 30 de setembro de 1919, o meu venerado Predecessor, o Papa Bento XV, escrevia: “Nós recomendamos com insistência a todos os católicos a Obra da Santa Infância (hoje Infância Missionária), que tem por objetivo garantir o Batismo às crianças não-cristãs. Recomendamos que todas as crianças cristãs possam aderir a esta Obra, para que, graças a ela, aprendam a cooperar com a evangelização do próximo e compreendam já desde a sua idade o valor precioso da fé” (Encíclica Maximum Illud).
A Solenidade da Epifania deste ano reveste-se de um valor todo especial, porque são comemorados os 160 anos de história da Obra da Infância Missionária, que atualmente está presente em 110 países. Ela propõe às crianças de todas as dioceses do mundo um programa baseado na oração, no sacrifício e em gestos de solidariedade concreta: assim elas podem tornar-se evangelizadoras de outras crianças.
O tempo da Missão juvenil
2. Queridas crianças missionárias, sei com que dedicação e generosidade vocês procuram levar adiante esta Obra apostólica. Vocês se esforçam de tantas formas para partilhar o destino das crianças obrigadas a trabalhar antes do tempo e para socorrer as mais pobres nas suas necessidades. Sejam solidárias com os anseios e as situações dramáticas das crianças envolvidas nas guerras dos adultos, sendo muitas vezes vítimas da violência bélica. Rezem todos os dias para que o dom da fé que vocês receberam seja transmitido a milhões de pequenos amigos de vocês que ainda não conhecem Jesus.
Vocês estão justamente convencidas de que todo aquele que encontra Jesus e aceita o seu Evangelho se enriquece de muitos valores espirituais: a vida divina da graça, o amor que irmana, a dedicação ao próximo, o perdão dado e recebido, a disponibilidade para acolher e ser acolhidos, a esperança que nos projeta na eternidade, a paz como dom e como compromisso.
No tempo do Natal, em muitas Comunidades, as crianças da Obra da Infância Missionária, vestidas de Magos ou de pastores, passam de casa em casa, anunciando alegremente o Natal. É um costume simpático dos Cantores da Estrela, que teve início por iniciativa da Infância Missionária nos países de língua alemã e que depois se espalhou em muitas nações: meninos e meninas batem às portas, cantam hinos natalícios, recitam orações, apresentam às famílias projetos de solidariedade. Assim os pequeninos evangelizam também os grandes.
Amor que abraça o mundo
3. Este compromisso de evangelização e de solidariedade — vocês sabem muito bem — não se limita a algumas semanas e unicamente ao período de Natal, mas continua por toda a vida. É por isso que as encorajo a responderem generosamente aos numerosos pedidos de ajuda que chegam dos países pobres.
Quantas crianças na Europa, na América, na Ásia, na África e na Oceania rezam e trabalham por este mesmo ideal! Foi criado um Fundo Mundial de Solidariedade, alimentado por ofertas que chegam de todas as partes do mundo. Ele é usado para financiar pequenos e grandes projetos destinados à infância.
Existem bonitas histórias de crianças que, para adotarem à distância os seus pequenos amigos, tornaram-se vendedoras de estrelinhas ou colecionadoras de selos; para libertarem crianças obrigadas a ir para a guerra, renunciaram a um brinquedo ou a um divertimento caro; para financiarem os livros de catequese ou para construírem escolas em regiões de Missão, comprometeram-se em várias formas de poupança. E os exemplos poderiam continuar... Não é um verdadeiro milagre do amor de Deus, vasto e silencioso, que deixa uma marca no mundo?
Todas vocês, queridas crianças missionárias, devem participar deste milagre! E quem não possui mesmo nada pode oferecer o contributo da oração, juntamente com as dificuldades da sua pobreza.
A força educadora da Missão
4. Queridos meninos e meninas, o compromisso missionário ajuda vocês mesmos a crescerem na fé, fazendo de vocês alegres discípulos de Jesus.
A solidariedade com os menos favorecidos abre o coração de vocês para as grandes exigências da humanidade. Nas crianças pobres e necessitadas vocês podem reconhecer o rosto de Jesus. Foi assim que fizeram grandes missionários como Francisco Xavier, Mateus Ricci, Carlos de Foucauld, Madre Teresa de Calcutá e muitos outros, em todas as regiões do mundo.
Desejo de coração que os seus Pastores, Bispos e sacerdotes, assim como os seus catequistas e animadores, os seus pais e professores, se interessem pela Obra da Infância Missionária. Desde a sua fundação, ela deu frutos de heroísmo missionário, e escreveu páginas muito bonitas na história da Igreja. As primeiras crianças pobres chinesas salvas pelas “crianças missionárias” tornaram-se professores, catequistas, médicos e sacerdotes. O dom do Batismo transformou-se em luz para eles e para as suas famílias.
Entre as crianças ajudadas pela oferta e pela oração de outras crianças, encontram-se o mártir Paulo Tchen e o primeiro Arcebispo de Pequim (China), o Cardeal Tien Kenshin. Depois, ao longo dos anos, desabrochou em muitos meninos e meninas a vocação à total consagração à evangelização.
Como não lembrar a pequena Teresa de Lisieux, que, aos sete anos de idade, em 12 de maio de 1882, fez a sua inscrição na então Santa Infância e, ao 14 anos, já tinha decidido doar-se a Jesus pela salvação do mundo? Hoje, esta fecundidade espiritual não se extinguiu Oremos para que um número cada vez maior de crianças ponha à disposição do Evangelho, não só um período da sua vida, mas toda a sua existência. Peçamos também a Deus que se difunda em toda a parte a ação benéfica da Infância Missionária.
Ainda uma Ave-Maria
5. As necessidades das crianças do mundo são tão numerosas e complexas que não existe um cofre ou um gesto de solidariedade, por maior que seja, capaz de as satisfazer. É necessária a ajuda do Alto. Vocês, queridas crianças missionárias, inscrevendo-se na Obra da Infância Missionária, assumem como primeiro compromisso a oração de uma Ave-Maria por dia. De fato, vocês sabem que a eficiência da Missão se baseia antes de mais nada na oração, e, por isso, vocês se dirigem a Nossa Senhora, Estrela da Evangelização.
Faz 160 anos que vocês a invocam em nome de todas as crianças do mundo. Exorto-as a perseverar nesta bonita prática, com um compromisso renovado neste Ano do Rosário. Os maiores podem tentar, pelo menos algumas vezes, rezar uma dezena do Rosário, ou até mesmo um dos Mistérios completos. O Rosário missionário é muito bem pensado: uma dezena, branca, é pela velha Europa, para que seja capaz de voltar a apropriar-se da força evangelizadora que gerou tantas Comunidades cristãs; a dezena amarela é pela Ásia, que explode de vida e de juventude; a dezena verde é pela África, provada pelo sofrimento, mas disponível para o anúncio; a dezena vermelha é pela América, promessa de novas forças missionárias; a dezena azul é pela Oceania, que espera uma difusão do Evangelho ainda mais profunda.
Queridas crianças missionárias, que Nossa Senhora as acompanhe no seu compromisso! Confio vocês a ela, juntamente com os seus familiares e com as comunidades cristãs às quais vocês pertencem. Abençôo vocês todas com afeto.
Vaticano, 6 de janeiro de 2003,
Solenidade da Epifania do Senhor.
João Paulo II
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